sexta-feira, 22 de junho de 2012

Gêneros orais formais públicos na escola




O trabalho com gêneros orais na escola pode ser muito compensador em muitos aspectos. Além de poder tomá-los como unidades organizacionais do ensino, os gêneros se relacionam com usos reais da língua, independente de sua forma ou de sua variedade, e os gêneros orais também se inserem nas mais diversas atividades humanas, sendo também contemplados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais para processo de ensino-aprendizagem. Contudo, é possível explorar mais o estudo dos gêneros orais que por vezes, acabam perdendo espaço para os gêneros escritos mais enfatizados.
Ao tomarmos conhecimento dos estudos de Dolz e Schneuwly é possível reconhecer o fato de que “a exposição constitui uma estrutura bastante convencionalizada de aprendizagem” (1998, p.218) no qual o aluno pode assumir a função tradicionalmente delegada ao professor, a de “especialista”, transmissor de conhecimentos. Qualquer gênero oral formal pode (e deve) ser trabalhado na escola, pois ainda que compartilhem diferenças linguísticas, discursivas e estruturais, todos são capazes de gerar confrontos com as formas mais cotidianas de produção oral, colaborando para que os alunos possam ultrapassá-las e dominar formas mais institucionalizadas, o que é possível com intervenções didáticas do professor. Vale a pena mencionar que nossas práticas escolares no que se relaciona aos gêneros textuais se distanciam das propostas genebrinas, que tendem ao trabalho com os gêneros (orais e escritos) em diversos domínios sociodiscursivos, com análises menos estruturais e mais funcionais dos gêneros. Eles também apresentam os gêneros em sequência temporal e espiral, onde todos os alunos de todos os ciclos podem estudar, em caráter progressivo de complexidade, os gêneros orais, como a exposição oral e o debate. É possível assumirmos o trabalho com os gêneros orais também dessa forma, e tomá-lo em sua totalidade, ampliando o leque de conhecimento dos alunos.
O trabalho com gêneros orais formais públicos abrange diversos aspectos de aprendizagem e, muitas vezes, não exclui a leitura e/ou a escrita que pode aparecer como parte sua composição, como ocorre, por exemplo, no preparo de uma palestra na qual um palestrante pode planejar previamente sua exposição por meio da escrita para auxiliá-lo. De natureza multissemiótica (como a maioria dos gêneros) as exposições orais como palestras e debates trabalham competências e habilidades diversas nos alunos. Entre elas se inserem as lexicais, gramaticais, linguísticas, discursivas, situacionais (comunicativas), dialógicas, entre outras, auxiliando o aluno a posicionar-se diante dos outros, assumindo diferentes posturas. O professor em sua mediação com os alunos deve atentar para todas as múltiplas competências e habilidades que podem ser trabalhadas/desenvolvidas ao longo do processo de utilização dos gêneros orais formais públicos. Segundo os autores genebrinos:
A exposição representa um instrumento privilegiado de transmissão de diversos conteúdos. Para a audiência, mas também e, sobretudo para aquele(a) que a prepara e apresenta, a exposição fornece um instrumento para aprender conteúdos diversificados, mas estruturados graças ao enquadramento viabilizado pelo gênero textual. A exploração de fontes diversificadas de informação, a seleção das informações em função do tema e da finalidade visada e a elaboração de um esquema destinado a sustentar a apresentação oral constituem um primeiro nível de intervenção didática, ligado ao conteúdo. (Dolz, Schneuwly, 1998, p.216)

Quando falamos de gêneros orais é importante atentarmos para além das palavras, pois a forma e o modo de proferi-las fazem toda a diferença. As modulações vocais, gestuais e corporais integram o todo de uma exposição oral e surtem efeito em nosso interlocutor/ouvinte. Dependendo do modo de abordagem, uma palestra pode assumir formatos variados, assumindo uma linguagem mais formal ou informal, e de acordo com sua esfera de circulação ela também varia.
Apesar de ser do âmbito da oralidade, as exposições formais como as palestras devem ser planejadas, e importa que os alunos reflitam sobre isso. Não adianta apenas “abrir a boca e sair falando”, mas é preciso refletir sobre o quê e sobre como dizer, atentando para quais efeitos de sentidos desejamos atingir e em qual público alvo, pois nossos ouvintes certamente terão, em alguma medida, determinadas modificações a partir de nossa exposição. Portanto, é preciso planejar atentando para a estrutura dos gêneros orais, que apesar de parecerem pouco estruturados revelam sequências (dialogais, semânticas, discursivas etc) que fazem a diferença no momento da interação quando bem articuladas.
Permitir que nossos alunos experimentem o papel de especialista, expondo problemáticas compartilhadas em níveis diversos de dificuldade é prática importante para o domínio dos gêneros orais formais. Atentar para as reações do público também auxilia no domínio destes gêneros. Apenas praticando é que poderão se aperfeiçoar e aprender, pois gradativamente eles próprios vão sendo capazes de se autoavaliarem, percebendo se conseguem ou não atingir plenamente os objetivos desejados para aquele determinado público.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENTES, A. C. Linguagem Oral: Gêneros e Variedades. Tópico 1: O trabalho com gêneros orais formais na escola. Campinas, SP. UNICAMP/REDEFOR, 2012. P. 1/8. Material digital para AVA do Curso de Especialização em Língua Portuguesa REDEFOR/UNICAMP.

DOLZ, J.; SCHNEUWLY, B.; DE PIETRO, J.-F.; ZAHND, G. A exposição oral. IN: B. SCHNEUWLY; J. DOLZ e colaboradores. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2004[1998]. P. 215-246. Tradução e organização de R. H. R. Rojo e G. S. Cordeiro.

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