segunda-feira, 9 de julho de 2012

Era digital e seus novos paradigmas na escola



Os desafios da escola na era digital são muitos. Além da familiarização e apropriação naturais, as novas tecnologias requerem que novas competências e habilidades sejam construídas e trabalhadas e a interatividade está no cerne desse processo de construção e troca de conhecimento. As velhas práticas transmissivas já não correspondem aos moldes de ensino-aprendizagem requeridos, pois vivemos numa sociedade de troca e de compartilhamento de informações e de saberes. Assim, o esquema tradicional de emissor e receptor não corresponde à realidade interativa das práticas escolares desejáveis para o nosso tempo atual. Autores como Lemos (1997) e Silva (2004) atentaram para o fato de que por meio das tecnologias digitais podemos mais que interagir com máquinas inanimadas, interagir com a própria informação, a manipulando e reformulando. Assim, atuamos com protagonismo, de forma ativa, pois não se trata de uma atuação passiva de um receptor tradicional. Isso significa que há elementos e dispositivos que podem tornar uma aula mais interativa que outros, como é o caso do próprio computador, pois estabelecemos relações com ele e a partir dele distintas das que estabelecemos com uma TV, por exemplo.
A mensagem não é mais “emitida”, não é mais um mundo fechado, paralisado, imutável, intocável, sagrado, é um mundo aberto, modificável na medida em que responde às solicitações daquele que a consulta.
O receptor não está mais em posição de recepção clássica, é convidado à livre criação, e a mensagem ganha sentido sob sua intervenção. (MARCHAND, 1987 apud Silva, 2004, p. 6)
           
Não é por acaso que chamamos nosso momento de era da comunicação, pois esse termo envolve mais de um agente e remete a um processo de interação no qual emissores e receptores trocam de papeis constantemente não havendo uma posição de destaque para um transmissor distribuidor de conteúdos. Bakhtin (1997) já havia atentado para isso ao analisar de forma crítica a natureza prática dos discursos ao mencionar que todo receptor possui uma atitude responsiva ativa e que toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o ouvinte torna-se o locutor. (Bakhtin,1997, p.291)
Considerando estes pontos, nos redirecionamos aos desafios que os recursos tecnológicos digitais apresentam às práticas escolares. O caráter potencializador que os recursos telemáticos e digitais possuem redelineiam o papel de professor, que nessa conjuntura se mostra como aquele que instiga a busca, questiona, intervém, estimulando e incitando seus alunos à ação. O professor não desponta mais como protagonista do processo, mas promove trocas, disponibiliza autoria, pois os alunos participam do processo da construção de seus conhecimentos. Reconhecer essa mudança de paradigma é o primeiro passo para a mudança de postura em sala de aula, pois ainda que muitos professores permaneçam incrustados em suas velhas práticas tradicionais, os jovens já vêm exercendo seus papeis com protagonismo, quer queiramos ou não. Os diálogos e intervenções constantes nas aulas, que muitas vezes são vistos como atitudes indesejáveis e de indisciplina, demonstram o posicionamento de jovens que não se ajustam aos moldes arcaicos de ensino-aprendizagem. Tais intervenções participativas seriam exemplos de uma tendência da comunicação social contemporânea, conforme menciona Silva (1998) explicitando os níveis de interatividade.
Atentar para as colocações dos alunos, suas falas, além de denotar respeito ao nosso educando, como dizia Freire, pode nos ajudar em nossa prática.
Certa vez um aluno estava mexendo em seu celular durante uma aula de inglês na qual dicionários foram disponibilizados a todos. Deveriam completar uma atividade de palavras cruzadas. A atenção desse aluno foi chamada por diversas vezes, e a professora repetia que o uso de celular era proibido, que ele deveria se voltar para a atividade ou seria advertido por escrito, caso persistisse. O aluno pareceu ignorar, mas antes que a professora assinasse a advertência ele entregou a atividade completa, antes dos demais alunos. No mesmo ato, inclinou o aparelho deixando visualizar um aplicativo, uma espécie de dicionário com múltiplas funções que ele continha no aparelho. A professora era eu e não soube como reagir após diante disso. Ele estava fazendo sua atividade com outros recursos, buscando a informação como os demais, apenas de modo diferente, e digo mais eficiente. O uso do aparelho é proibido para falar, ouvir músicas e jogar na sala de aula, mas até que ponto seria proibido utiliza-lo para consulta ao dicionário?  Circunstâncias deste tipo, cada vez mais comuns impulsionam a revisão de nossa prática em meio aos novos recursos tecnológicos.
A hipertextualidade presente em muitos gêneros e textos digitais induz a uma interação constante, ainda que involuntária, pois muitas vezes não nos damos conta de que com um clique estamos buscando novas interações (como imagens, textos, sons etc). Os textos surgem se mesclando e se fundindo, por meio da integração de diversas modalidades de linguagens cada qual assumindo funções específicas, por meio de recursos igualmente específicos. Lidar com esse novo formato de conteúdo, de suporte, de interação com o conhecimento requer que deixemos de priorizar  o giz e a lousa como as ferramentas indispensáveis do professor, pois estes já deveriam estar aposentados. Reconhecendo que o que importa é comunicar e por meio dessa capacidade, interagir e aprender, precisamos do computador e da internet abrindo e ampliando nossos horizontes. Precisamos permitir que as formas, cada vez mais aperfeiçoadas de recursos tecnológicos nos auxiliem em nossa tarefa, permitindo que notebooks e tablets, por exemplo, não sejam apenas nossos aliados para digitação de textos ou entretenimento, mas sejam meios legítimos de construção de saberes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAGA, D. BUZATO, M. Multiletramentos, linguagens e mídias. Tema 2: A linguagem nos/dos novos meios.  Campinas. SP: UNICAMP/REDEFOR, 2012. Material digital para AVA do Curso de Especialização em Língua Portuguesa REDEFOR/UNICAMP.

SILVA, M. Indicadores de interatividade para o professor presencial e on-line. Revista Diálogo Educacional, v. 4, n. 12, p. 01-17. Curitiba: Ed. Champagnat, 2004. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=189117821008, acesso em 09/06/2012.

LEMOS, A. Anjos interativos e retribalização do mundo. 1997. Disponível em: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/lemos/interativo.pdf, acesso em 19/06/2012.

SILVA, M. O que é interatividade. Boletim Técnico do SENAC, v.24, n.2, Rio de Janeiro, 1998.  Disponível em: http://www.senac.br/informativo/bts/242/boltec242d.htm  , acesso em: 20/06/2012

BAKHTIN, M. ‘Os Gêneros do discurso’. In: Estética da criação verbal. Tradução
de Maria Ermantina G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1997, págs. 261-306.

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